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ASCUS associado ao HPV e conduta clínica preconizada: revisão bibliográfica.

ASCUS
associado ao HPV e conduta clínica preconizada: revisão bibliográfica.

Maria Angélica de Oliveira Luciano Vilela1, Ana
Claudia Camargo Campos2, Sandra Oliveira3

 

Artigo Científico, Faculdade Unidas de
Campinas – FACUNICAMPS e Instituto Health, 2017, Goiânia – GO.

1.
Biomédica. Especialista em Citopatologia
Ginecológica, Goiânia-GO. E-mail: maryangelyc1995@gmail.com. 

2.
PhD. Departamento de Microbiologia do
Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de
Goiás. E-mail:

 

INTRODUÇÃO: Falta de uniformização de
critérios citológicos e conduta clínica indecisa diante ao resultado ASCUS,
geram riscos à paciente de evolução da infecção pelo HPV. OBJETIVO: Propor
análise da importância da abordagem sobre ASCUS e sua associação com a infecção
pelo vírus HPV, bem como a conduta clínica preconizada. METODOLOGIA: Revisão
bibliográfica de artigos que abordassem o histórico do Sistema de Bethesda e a
evolução da citologia, relatos de câncer de colo uterino associados à laudos
positivos para ASCUS com infecção subsequente por HPV e, discussão sobre
conduta clínica preconizada.  RESULTADO E
DISCUSSÃO: Resultados positivos para ASCUS tem uma alta prevalência de detecção
posterior para o vírus HPV. Existe uma vasta literatura sobre a associação do
vírus HPV e o carcinoma cervical, mostrando que alguns aspectos ainda são
controversos. A identificação do DNA desse vírus, na triagem de citologias que
tiveram resultado ASCUS, tem se tornado padrão na prática médica atual. Porém,
as taxas de morbi-mortalidade por câncer de colo de útero, continuam altas em
países em desenvolvimento por seu combate depender quase que exclusivamente do
exame citológico, não obtendo-se especificidade no diagnóstico/tratamento.
CONCLUSÃO: A padronização dos Programas de Controle de Câncer do Colo Uterino,
assim como o aperfeiçoamento dos profissionais responsáveis pela realização do
exame citológico e o adequado encaminhamento do paciente, minimizarão as
estimativas que conduzem a evolução da doença.

DESCRITORES: HPV, ASC,  teste de Papanicolaou, colo do útero,
carcinoma in situ e neoplasia do colo do útero.

 

INTRODUCTION: Lack of uniformity of cytological criteria and undecided
clinical conduct in relation to the ASCUS result, generate risk to the patient
of evolution of the HPV infection. OBJECTIVE: To propose an analysis of the
importance of the ASCUS approach and its association with HPV infection, as
well as the recommended clinical management. METHODOLOGY: Bibliographical
review of articles addressing the history of the Bethesda System and the
evolution of cytology, reports of cervical cancer associated with positive
reports for ASCUS with subsequent HPV infection, and discussion on recommended
clinical management. RESULTS AND DISCUSSION: Positive results for ASCUS have a
high prevalence of subsequent detection for the HPV virus. There is a vast
literature on the association of the HPV virus and cervical carcinoma, showing
that some aspects are still controversial. DNA identification of this virus, in
the screening of cytologies that have resulted ASCUS, has become standard in
current medical practice. However, rates of morbidity and mortality from
cervical cancer remain high in developing countries because of their reliance
on the cytological examination almost exclusively, and specificity in diagnosis
/ treatment is not obtained. CONCLUSION: The standardization of Cervical Cancer
Control Programs, as well as the improvement of the professionals responsible
for performing the cytological examination and the adequate referral of the
patient, will minimize the estimates that lead to the evolution of the disease.

KEY WORDS: HPV, ASC, pap smear, cervical, carcinoma in situ and cervical
neoplasia.

 

INTRODUÇÃO

Após a introdução
da análise do esfregaço celular por Geórgios
Papanicolaou
, em 1940, como método de detecção do câncer de colo uterino
e suas lesões precursoras, diferentes terminologias têm sido utilizadas para
descrever o diagnóstico citológico1. A classificação de Papanicolau
é baseada em critérios citológicos e divide, de acordo com a Associação
Brasileira de Genitoscopia2, as alterações em cinco grupos: classe I
(epitélio normal, ausência de atipias), classe II (células anormais sem
malignidade, alterações inflamatórias), classe III (sugestiva, mas não
conclusiva de malignidade), classe IV (fortemente sugestiva de malignidade) e
classe V (conclusivo para malignidade).

Em 1953, James
W.  Reagan, se preocupou com os aspectos
histológicos e, para tentar corrigir os desencontros de interpretação entre a
citologia e a histologia que ocorria na classificação de Papanicolaou,
introduziu o termo “displasia” para igualar os temos utilizados nas
duas áreas. Essa classificação se divide em: normal; com atipia; displasia
leve/moderada/acentuada (de acordo com o grau de comprometimento do epitélio);
carcinoma in situ; carcinoma escamoso ou adenocarcinoma.  No entanto, também se baseava em critérios
morfológicos, atendendo bem ao patologista, mas pouco se relacionava com o
prognóstico da lesão, gerando dúvidas quanto à conduta clínica como, quando se
encontra uma displasia moderada já é recomendado se fazer uma colposcopia? Ou,
diante de uma displasia acentuada já poderia se fazer uma biópsia para evitar a
evolução da doença? Portanto, o diagnóstico continuava inespecífico2.

Em 1967, Reid M.
Richart, acreditando serem as displasias parte de um processo contínuo que
podem evoluir para o câncer, classificou-as em: neoplasia intra-epitelial
cervical grau I (NIC I), correspondente à displasia leve; neoplasia
intra-epitelial cervical grau II (NIC II), referente à displasia moderada e,
neoplasia intra-epitelial grau III (NIC III), correspondente à displasia severa
e carcinoma in situ3.

Em 1988, um
pequeno grupo de citologistas, histopatologistas e participantes no tratamento
de pacientes participou de um encontro promovido pelo NCI (Instituto Nacional
do Câncer) em Bethesda, Maryland (EUA). Este tinha por objetivo desenvolver um
sistema de descrição de resultado dos esfregaços citopatológico cérvico-vaginal
Papanicolaou (PAP), de forma a ficar claro e relevante para o clínico. Porém, a
nova nomenclatura proposta gerou um confronto, pois substituía uma
classificação utilizada há décadas, eliminando a categoria diagnóstica
displasia. Na prática, o termo “displasia” apresentava pouca
reprodutibilidade entre os observadores. Então, o Sistema de Bethesda propôs
uma divisão em duas partes, lesões intra-epiteliais escamosa de baixo e alto
graus (LSIL e HSIL), substituindo o que anteriormente se subdividiam em NIC 1,
2, 3 e o carcinoma in situ4.

Em 2001, ocorreu
o encontro mais recente para rever e revisar a terminologia do Sistema de
Bethesda, no qual ampliou seu alcance de participantes envolvidos através do
uso da Internet, onde mais de 2.000 comentários foram acatados antes do
encontro físico que reuniu mais de 400 participantes vindos de mais de 24
países. Esse encontro gerou a confecção do primeiro Atlas The Bethesda System
(TBS) na web servindo como apoio ao livro Sistema de Bethesda para Citopatologia
Cervicovaginal4.

Após a introdução
do Sistema de Bethesda e o seu Atlas online, afirmou-se que o projeto fora
realizado de forma flexível para evoluir de acordo com as necessidades do teste
de triagem (screening) e da evolução da patologia do câncer cervical. Assim,
concluíram que o TBS, ao invés de responder às mudanças no campo da
carcinogênese, ele estabeleceu direcionamentos em diversas áreas, desempenhando
um papel vital no início de uma pesquisa do câncer de colo de útero, abordando
novas estratégias de tratamento e incorporando novas tecnologias de citologia
cervical4. De acordo com Pomar (2005) um
sistema de nomenclatura como este, estabelece uniformidade na comunicação entre
todos os profissionais responsáveis por diagnósticos em citologia cervical5

De todas as
alterações introduzidas pelo Sistema de Bethesda, a que mais trouxe problemas
foi a “Células Escamosas Atípicas de Significado Indeterminado” –
ASCUS (Atypical Squamous Cells of Undetermined Significance)4. O
termo ASCUS, foi introduzido em 1988 com a finalidade de facilitar o
diagnóstico de células escamosas com anormalidade que não preenchem os
critérios encontrados em condições inflamatórias reativas, pré-neoplásicas ou
neoplásicas. Refere às alterações sugestivas
tanto de lesão intra-epitelial de baixo grau (LSIL- Low Grade Squamous
Intraepithelial Lesions ) como de lesão intra-epitelial escamosa de grau
indeterminado (SIL). Na mais recente revisão do Sistema de Bethesda,
enfatizou-se a importância de determinar as atipias em normal ou abrigar a um
SIL. Para as que se enquadravam em uma SIL, ficaram divididas em duas
subcategorias: células escamosas atípicas de significado indeterminado, ASC-US
e, células escamosas atípicas, onde não é possível excluir uma lesão
intra-epitelial de alto grau (HSIL -High Grade Squamous Intraepithelial
Lesion), ASC-H.6.

O uso do termo
ASCUS está cada vez mais discutível, devido à falta de uniformização de
critérios citológicos dessa anormalidade, quanto também à facilidade que esta
classificação traz em casos de indecisões diagnósticas que, por falta de
conhecimento sobre a conduta clínica frente a esse resultado, leva-se a um
diagnóstico errôneo.  Para minimizar essa
situação, é importante que ocorra o aperfeiçoamento contínuo do profissional
escrutinador, para que uma adequada conduta laboratorial associada a critérios
específicos para classificação e associação com infecção pelo Human papillomavirus7 (HPV),
reduza a gravidade da morbidade e diminua taxas mortalidade por essa causa.

Assim, propõe-se nessa
pesquisa analisar e ressaltar a importância da abordagem sobre ASCUS e sua
associação com a infecção pelo vírus HPV, bem como a conduta clínica
preconizada.

 

METODOLOGIA

Foram analisados
publicações indexadas em plataformas virtuais livres. Não houve delimitação por
período. As buscas foram realizadas com os termos contidos no Decs Lilacs: HPV;
ASC;  teste de Papanicolaou; Colo do
Útero; Carcinoma in situ; Neoplasia do Colo do Útero. Os critérios de inclusão
utilizados foram: artigos que abordassem o histórico do Sistema de Bethesda
juntamente com a evolução da citologia; relatos do screening (teste de
triagem)  de câncer de colo uterino
associados à laudos positivos para ASCUS com infecção subsequente por HPV; e
apresentar abordagem sobre conduta clínica preconizada. E o critério de
exclusão utilizado foi: estudos que não associassem HPV à ASCUS. Os resultados
da pesquisa poderão ser publicados em revista científica para divulgação de
informações de relevância para melhora da assistência a saúde, relacionados ao
controle mais eficaz da prevalência de laudos positivos para ASCUS.

 

RESULTADO E DISCUSSÃO

         O exame Papanicolaou é uma técnica de
detecção do câncer de útero que desde 1940 vem se difundindo pelo mundo1.
Esse exame permitiu identificar com alterações celulares pré-maligna na cérvix
uterina, possibilitando observar uma associação da atividade sexual com o
desenvolvimento do câncer de colo de útero3. No entanto, somente na
década de 70, o conhecimento acerca da etiologia da doença resultou em  considerável avanço. Estudos constataram que
tal associação implicava na presença de um agente etiológico de transmissão
sexual. Harold Zur Hausen, um infectologista alemão, constatou que o Human papillomavirus (vírus HPV) poderia
ser esse agente estabelecendo inicialmente a relação do vírus com as verrugas e
condilomas. Somente anos mais tarde, o vírus foi relacionado com o
desenvolvimento do carcinoma de colo uterino8.

O HPV é um vírus
DNA que pertence à família Papillomaviridae,
apresentando forma icosaédrica não envelopada e genoma circular  composto por dupla fita de DNA, possuindo
três vias de transmissão: sexual, não sexual (familiar ou hospitalar) e
materno-fetal (gestacional, intra ou periparto). Atualmente existem mais de 100
tipos de HPV identificados, 30 deles já encontrados em infecções da mucosa
anogenital. São divididos em baixo-risco (HPVs tipo 6, 11, 40, 42, 43, 44, 54,
61, 70, 81), onde geralmente na clínica se encontra verrugas genitais, e de
alto-risco (16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 66, 68, 73, 82). Os
tipos HPV 16 e 18 são relacionados aos casos de câncer cervical invasivo em
aproximadamente 70% das pacientes e em 90% com lesões intra-epiteliais graves.
Estimativas indicam que infecções pelo HPV ocorrem em até 75% das pessoas
sexualmente ativas9.

Os testes de
detecção de HPV como complemento à citologia cervical nos programas de
rastreamento de câncer de útero são: Captura Híbrida e Reação em Cadeia de
Polimerase (PCR). A captura híbrida é um método largamente utilizado devido à
alta sensibilidade e a facilidade para a prática clínica de rotina. Essa
técnica se baseia na hibridização de DNA viral de único filamento de RNA que
reconhecem 13 tipos de HPV de alto-risco e 5 tipos de HPV de baixo risco.
RNA/DNA – híbridos são combinados com anticorpos anti-híbridos marcados e um
substrato quimioluminescente, que emite luz medida por um luminômetro. A
presença ou ausência de DNA de HPV é definida de acordo com a força em unidades
relativas de luz (RLU) comparada com 1pg/ml de controle positivo de DNA de HPV10.
A técnica de PCR permite a amplificação de sequências de ácido nucléico
específico. Para amplificar a fita de DNA viral, a sequência de nucleotídeos
deve ser conhecida. Com primers apropriados e condições de temperatura, a síntese
de uma fita complementar procede automaticamente por ligação de nucleotídeos
livres usando a enzima DNA-polimerase. Cada ciclo sucessivo dobrará a
quantidade de DNA, produzindo 230 vezes DNA após 30 ciclos. Após poucas horas,
pequenas quantidades de DNA (nanogramas) podem ser transformadas em grandes
quantidades (miligramas), que podem ser facilmente manipuladas11.

A identificação
do DNA desse vírus, na triagem de citologias que tiveram resultado ASCUS, tem
se tornado padrão na prática médica atual. Estudos afirmam que a detecção de
DNA de HPV de alto risco é útil no complemento de um resultado citológico  anormal e que nas mulheres com ASCUS, a
presença desse grupo de HPV aumenta substancialmente a chance de evoluir para o
câncer de colo 1.

A expressão
“ASC” (Células escamosas atípicas) era a interpretação mais ampla
definindo células escamosas atípicas de significado indeterminado. Porém, em um
estudo realizado nos Estados Unidos sobre a prática de laudos em mais de 700
laboratórios no ano de 1996, foi descoberto que essa classificação correspondia
a uma média de 5,2% dentre todos os laudos de citologia cervical12.
Esses dados concluem que diversos laboratórios do EUA não atingiram o alvo de
manter a frequência de ASC abaixo de 5%. Com isso, fez-se necessário a
bifurcação da categoria ASC em ASC-US e ASC-H para que se pudesse  obter uma definição mais restrita e simples
para os citologistas4.

ASC-US não
representa uma individualidade diagnóstica, pois ela inclui alterações não
relacionadas com o HPV e/ou neoplasia. Estudos apresentam que cerca de 50% das
mulheres com ASC-US estão infectadas pelos tipos de alto risco oncogênico do
HPV, o restante das mulheres não se encontram sob risco de evolução para o
câncer. Nesse último caso, ocorre
por causa de diversas condições não-neoplásicas e também não relacionadas com a
infecção pelo HPV, mesmo apresentando alterações citológicas similares às
classificadas como ASC-US, como por exemplo, inflamação, dessecamento, atrofia
com degeneração e outros artefatos4.

O ASCUS se refere
às alterações sugestivas tanto de LSIL como de SIL de grau indeterminado pois,
apesar de a maioria das análises de ASCUS serem sugestivas de LSIL, o
qualificador “significado indeterminado” se encaixa em
aproximadamente 10 a 20% das mulheres portadoras de ASCUS apresentando um NIC 2
ou NIC 3 como prognóstico. O ASC-H é uma designação reservada para a minoria
dos casos de ASC (espera-se que menos de 10%) onde as alterações citológicas
são sugestivas de lesão intra-epitelial de alto grau (HSIL). A probabilidade de
ASC-H estar associado a detectar um NIC 2 ou NIC 3 posteriormente é maior que
ASCUS, porém a possibilidade do prognóstico passar das definitivas de HSIL são
menores13.

Visto que a
interpretação dos critérios citomorfológicos no diagnóstico de ASCUS envolve
subjetividade e conduz à baixa reprodutibilidade interpessoal, devido que
algumas alterações citoplasmáticas como paraceratose (processo anormal da
maturação onde a queratinização das células superficiais do epitélio é imcompleto)
e coilocitose (vacuolização perinuclear e extranuclear), associadas a uma
infecção pelo HPV estão presentes em ambos diagnósticos6, alguns
critérios para citologia oncótica pelo método de Papanicolau foram estipulados
para se chegar a conclusão de ASCUS frente a uma lâmina com: (1) os núcleos são
aproximadamente 2,5 a 3,0 vezes maior comparado a de uma célula escamosa
intermediária normal; (2) proporção núcleo e citoplasma ligeiramente aumentada
(N/C); (3) hipercromasia nuclear mínima e irregularidade na distribuição da
cromatina nuclear; (4) anormalidades nucleares associadas a citoplasma com
paraceratose atípica14.

A correlação
histológica de ASCUS se mostra indefinida devido a um amplo leque de
possibilidades que varia desde o achado de normalidade até carcinoma escamoso
invasor, não havendo, portanto, uma correlação direta entre o diagnóstico
citológico e histológico15. Frente a essa indefinição e dissociação
indireta entre o citológico e o histológico, surgiram diversas opiniões
divergentes em relação à clínica e/ou terapêutica das pacientes com o
diagnóstico ASCUS. Dentre elas, se discute a repetição da citologia
cérvico-vaginal, a colposcopia (exame da vagina e do colo do útero através de
um colposcópio), biópsia e teste de captura híbrida para HPV (teste de DNA do
HPV). A quantidade de pacientes com neoplasias e a severidade das alterações
neoplásicas encontradas no diagnóstico inicial de ASCUS são os fatores críticos
que determinam a necessidade de seguimento nas portadoras deste. No entanto, a conduta
correta sempre foi discordante entre os estudiosos. Essas discussões se baseiam
no que se deve proceder de forma mais adequada com o objetivo de impedir que
uma lesão cervical evolua para estágios mais avançados, os quais resultam em
tratamentos mais desconfortáveis à paciente16.

Na tentativa de
minimizar os controversos diagnósticos, o Ministério da Saúde juntamente com o
INCA publicou em 2011 a revisão e atualização das recomendações para o
rastreamento, substituindo a anterior publicada sob o título de Nomenclatura
Brasileira para Laudos Cervicais e Condutas Preconizadas (2006).  As recomendações consolidadas nesta
publicação representam as diretrizes para o rastreamento de câncer de colo de
útero na atenção primária (promoção e proteção à saúde), secundária
(especializada) e terciária (hospitalar) à saúde. E, afirma-se que, atualmente
as atipias escamosas de significado indeterminado representam a atipia
citológica mais comumente descrita nos resultados dos laudos citopatológicos do
colo do útero. Segundo dados registrados no SISCOLO em 2009, no Brasil, o
diagnóstico citológico de “ASC” representou 1,4% de todos os exames realizados
e 53,5% de todos os exames alterados17.

Para controlar o
uso ilimitado dos diagnósticos ASCUS, o Instituto Nacional de Câncer (INCA,
2006) definiu a estimativa de que para cada laboratório o número destes casos
deve ficar por volta de 5% da quantidade total de exames citológicos
realizados.  Porém, ainda permanece na
controversa a importância desta anormalidade diante da divergência entre
conduta clínica e o diagnóstico laboratorial17.

Observa-se
similaridade de recomendações de conduta diante a uma mulher com ASCUS quando
comparadas as diretrizes formuladas para o Estados Unidos18,
Austrália19, França20, Nova Zelândia21 e Reino
Unido22. Uma análise dessas diretrizes apontaram a convergência de
recomendações para a repetição da citologia entre seis e 12 meses. Em função de
evidências de que o tempo médio para clareamento da infecção pelo HPV é de seis
a 18 meses e, como a infecção pelo HPV oncogênico é mais persistente nas
mulheres com 30 anos ou mais, na Nova Zelândia, por exemplo, utilizam o ponto
de corte de 30 anos para determinar o intervalo de 12 meses para repetição da
citologia, pois essas têm maior probabilidade de apresentarem lesões
pré-invasivas21. Em alguns países recomendam a utilização do teste
de identificação para HPV oncogênico que, caso positivo, é critério para
encaminhamento para colposcopia. Todavia, em função do alto custo do teste no
mercado brasileiro, o encaminhamento para a colposcopia é determinado caso o
resultado ASCUS seja mantido, já que a repetição do exame citopatológico cumpre
o objetivo de identificar as mulheres que realmente precisam de colposcopia22.

As recomendações
de conduta, segundo o protocolo de prevenção e controle do câncer de colo de
útero de Belo Horizonte, publicado em 2008, indicam que as mulheres que
apresentam ASCUS como diagnóstico devem ser submetidas ao tratamento de
infecções associadas (se houver) e à nova coleta citológica após 04 meses23.  Na persistência deste diagnóstico, as
pacientes devem ser encaminhadas a serviço de colposcopia. Nos estados de São
Paulo, Rio de Janeiro e demais estados com realização do exame citopatológico
em alta demanda, as recomendações de conduta se convergem na separação das
mulheres em dois grupos, inferior e com 30 anos ou mais. Diante de um resultado
de exame citopatológico de ASCUS, para o grupo de inferiores a 30 anos,  a repetição da colpocitologia está
recomendada no intervalo de 12 meses. E, a conduta na mulher com 30 anos ou
mais será a repetição do exame citopatológico em um intervalo de seis meses24.

Se dois exames
citopatológicos subsequentes, com intervalo de seis meses (ou 12 meses se com
menos de 30 anos), forem negativos, a paciente deverá retornar à rotina de
rastreamento citológico trienal, porém, se o resultado de alguma citologia de
repetição for igual ou mais significativo, a paciente deverá ser encaminhada
para a colposcopia. Se houver um novo resultado diferente de ASCUS, a
investigação deverá ser direcionada para o novo resultado24.

Diante a uma
colposcopia sem alterações, a mulher está recomendada ao retorno do rastreio
com intervalo semestral ou anual dependendo da faixa etária. Em caso de aspecto
colposcópico de baixo grau, a paciente poderá ser apenas acompanhada,
considerando-se outros fatores como idade, rastreio prévio ou anteriormente já
ter sido diagnosticada com doença cervical de baixo ou alto grau. Na
colposcopia com alterações, deve-se realizar a biópsia. Se, na biópsia, o
resultado for de lesão intraepitelial de alto grau ou câncer, a conduta será
específica para esse resultado. Considerando-se a baixa prevalência de doença
de alto grau e câncer nessas mulheres, a conduta ver-e-tratar é inaceitável25.

Em conclusões,
observamos que existe uma vasta literatura sobre a associação do vírus HPV e o
carcinoma cervical, mostrando que alguns aspectos ainda são controversos.
Apesar do avanço nos conhecimentos, as taxas de morbi-mortalidade por câncer de
colo de útero continuam altas em países em desenvolvimento, por ser uma
patologia de evolução lenta, sem manifestação clínica no seu início e,
principalmente por se tratar de uma infecção de transmissão sexual. Este estudo
mostrou que resultados positivos para ASCUS tem uma alta prevalência de HPV e,
em países como o Brasil, em que o seu combate ao câncer de colo uterino depende
quase que exclusivamente do exame citológico, ainda são necessários esforços
para que a ela seja detectada precocemente, pois são milhares de mulheres que
já foram expostas ao vírus HPV, e necessitam de seguimento e tratamento
adequado para uma infecção não progrida para o carcinoma.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sabe-se que, ao
identificar as lesões pré-cancerosas, torna-se possível o tratamento, a redução
da incidência de carcinoma invasor e, consequentemente, a mortalidade por esse
câncer. Este estudo relatou que 50% das mulheres com diagnóstico de ASCUS podem
estar infectadas por vírus HPV de alto risco oncogênico, e que destas, de 10 a
20% sugerem NIC 2 ou NIC3 como prognóstico. Esse há muita incerteza em
diagnósticos que podem ser malignos e com isso há comprometimento na qualidade
dos resultados dos exames, o que aumenta consideravelmente os riscos de piora
da qualidade de vida e até de morte.

A positividade do
teste para HPV utilizado na triagem de pacientes com ASCUS para a colposcopia
parece estar associada ao aumento de chance de detecção de NIC. Propomos que a
citologia inicial de ASC-US seja revista e, se confirmado,  duas estratégias podem ser seguidas:
realização de teste para HPV e colposcopia se HPV alto risco positivo ou
controle semestral com citologia. Nos casos classificados como normais à
revisão do ASC-US, sugere-se realizar nova citológica em 6 meses  

Programas de
rastreamento de CCU, encaminhamento de pacientes à colposcopia e especialmente
o esclarecimento à população da importância de realização de exames
citopatológicos, culminarão com a redução de casos de câncer de colo uterino.

A padronização
dos Programas de Controle de Câncer do Colo Uterino e o aperfeiçoamento dos
profissionais responsáveis pela realização do exame citológico e o adequado
encaminhamento do paciente, minimizarão as estimativas que conduzem a evolução
da doença.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Biotext Pty Ltd., 2005. Disponível em URL: http://www.nhmrc.gov.au/PUBLICATIONS/synopses/wh39syn.htm
(acessado em 13/01/2017).

20 France. ANAES (Agence Nationale d’Accréditation et d’Évaluation en
Santé). 2002. Clinical Practice Guidelines. Management of a Patient with an
Abnormal Cervical Smear.
2002 Update. Disponível em http://www.has-sante.fr/portail/jcms/c_267841/abnormal-cervical-smear-2002-update-guidelinespdf
(acessado em 13/01/2017).

21 New Zealand. Ministry of Health/National Screening Unit. 2008. Guidelines
for Cervical Screening in New Zealand.
Incorporating the Management of women with Abnormal
Cervical Smears. Disponível em http://www.moh.govt.nz/moh.nsf/pagesmh/8479/$File/cervical-screening-guidelines-aug08.pdf
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22. United Kingdom. NHS Cancer Screening Programmes. Colposcopy and
Programme management. 2004. Guidelines for the NHS Cervical Screening
Programme.
Disponível em www.cancerscreening.nhs.uk/cervical/publications/nhscsp20.html
(acessado em 13/01/2017).

23 Souza A, Rodrigues A, Augusto D,
Guimarães F, et al. Prevenção e controle do câncer de colo de útero: protocolos
de atenção à saúde da mulher. Belo Horizonte. 2008.

24 Ministério da Saúde e Instituto
Nacional de Câncer. Diretrizes para o rastreamento de colo de câncer de útero.
Rio de Janeiro (RJ). 2011.

25 Prefeitura Municipal da Saúde.
Protocolo da Saúde da Mulher. Presidente Prudente (SP). 2015.